Domingo, 3 de Janeiro de 2010

Entrei... Cheguei, não me perguntem como...

 

 

 


Saí do Ano velho, bem triste…

Eu triste…
E não o Ano Velho!

Entrei no Ano Novo sem me dar conta…
Algures num lar de idosos me encontrei…

Lá fora a euforia se ouvia…

Onde famílias inteiras, despediam-se do Ano Velho, alegrados com fogo de artificio, bebidas e bom jantar…

Querendo sacudir o Ano Velho dizem maldito,  por tanto mau viver…
Entram no Novo com euforia, com vivacidade, com risadas, com comezainas, com beijos e abraços….
Esquecendo-se do essencial…

Que não é o Ano Novo que lhes vai trazer paz, sossego e felicidade…
Mas sim as suas próprias atitudes…
Pouco tempo depois da meia-noite, recebi a visita de meus filhos e marido para me desejarem de coração um bom Ano…
Fiquei feliz, (alguem pensou em mim) mas não pode sorrir, não pode desfrutar do momento!
Agora, vão se perguntar porquê?

Muito fácil…
Passo a explicar…

À,s 19h45 como todos os dias entro ao serviço, no hall da entrada , estava sentada a Dª Emília toda sorridente, de xaile pelas costas, de saco na mão, bengala ao lado dela e nos diz ...
(a mim e minhas colegas que entramos sempre em grupo depois de termos tomado nosso cafezinho no Hospital mesmo ao lado…)

Boa noite meninas…
Respondemos em coro,  
Boa Noite Dª Emília onde vai toda catita?
Vou jantar ao meu Zé nos responde ela…
Sorridente lhe respondo…
Divirta-se e entre com o pé direito no novo Ano…
Ela toda feliz responde, obrigada menina…
Tenho tanta pena de vos ver aqui longe da vossa família e olhar por nós velhos que já só damos trabalho…

(Não gosto de ouvir isso e replico)
Dª Emília mas que disparate é esse?

Se não fosse vocês…  Não tinha-mos trabalho, éramos mais umas desempregadas disse eu com modo de riso que era para desanuviar.
Ela gargalhou e disse…
Só Você para me fazer rir…

Entramos ao serviço, enquanto lia o registo de ocorrências dos nossos utentes e preparava o carro das higienes assim como medicação…
Ouço uma colega da tarde dizendo para a chefe da noite…

 “ Vou servir o jantar á Dª Emília”··
Repliquei!

Alice a senhora não ia consoar a casa do filho?
Sim ia,  diz ela, mas já não vai…

Fiquei desorientada….
Sem saber o que isso significava ao certo…
Preparei meus afazeres e ia subir ao piso superior para iniciar a minha ronda de higienes e medicação para a noite, quando ouço a chefe da tarde dizendo para a da noite…

Não vou fazer ocorrência no livro de registos de que não vieram buscar a senhora e que tentei telefonar para o filho e que ele tinha o telemóvel desligado. Entristece-me e fica feio no livro de registos, já chega o que a senhora está a passar…

Ouço apenas a resposta da chefe de noite dizendo “Sim”

Já estava fora de mim…
Estava de subida ao piso…
Subi e vejo a senhora sentada sozinha, numa mesa comendo uma sopa com pão…

“Porque a cozinha estava fechada e porque os familiares tinham avizado que  viriam buscar a mãe, que nesse dia a senhora não jantaria no lar... "
Meu coração apertou-se com aquela imagem…

Enquanto fui buscar uma utente á sala de TV para levar para o quarto, vejo Dª Emília...
vinha devagar com cabeça baixa e triste em direcção ao quarto dela,  que era a direcção onde me situava…
Perguntei…

Dª Emília, onde vai, não-vai jantar ao seu Zê?

Responde-me ela triste, não menina…
"Esqueceram-se de mim…"

Não sabia o que dizer, fiquei sem sangue nas veias…
Tentei ainda dizer…
Talvez não conseguissem vir,  há muito transito, pode ser que ainda venham…

Ela me responde, corada pela revolta…

Não menina, não tente animar coração destorcido…
Ainda no Natal fui ao meu Manel e foi combinado que no Ano Novo seria no meu Zé, ainda perguntei...  Está combinado?
Disseram-me que sim…
Aprontei-me e eles até o telemóvel desligaram…
Vou-me deitar com uma sopa na barriga… Depois de tanto sofrer e dar a vida que dei aos meus filhos e eles me abandonam…
Que Mãe fui eu menina?

Não soube o que responder, minhas lágrimas corriam enquanto lhe abracei…

Ela apenas disse, ainda bem que as tenho meninas…
Sou mais bem acarinhada por vocês,  que deixam suas famílias para nos tratarem,  do que pelos filhos que pari….

Fiquei sem sangue, sem reacção, sem cor, sem sorriso, sem palavras…
Apenas abanei com a cabeça e lhe disse, vá se deitando eu vou já ter consigo…

Resposta…

Ò menina Deus lhe conserve como é, não perca tempo com uma velha que ninguém quer…
“Nem sequer meus próprios filhos”

(Fiquei desapontada com tanta dor, com tanta verdade…)

Peguei em todo o meu dinamismo, e disse,  Dª Emília Não quero ouvir isso, se cá estou nesta noite é precisamente para dar o que de melhor tenho
“O MEU AMOR, MEU CARINHO, MINHA COMPREENÇÃO E MINHA DEDICAÇÃO…”

Senão escolhia outra profissão…

Ela sorriu para mim e disse…
Sabe estou feliz por cá estar, tenho alguém que olha por mim sem querer o que tenho …
Olha por mim pelo que sou…
Olha por mim mesmo sendo chata…
Mas sou Feliz… Sinto-me acarinhada, aconchegada

Sabendo eu que ela estava a tentar desanuviar o seu sofrimento, passei a noite a visita-la no quarto durante essa noite…

Sabem o que encontrava a cada vez?

Uma Mãe triste, abandonada, saudosa, e desmotivada...
" Esquecida no dia da passagem do Velho para o novo Ano…"

(Enquanto os filhos estariam nessa multidão, aos beijos e abraços, ás rizadas e nas comesainas.)

Não me venham cá dizer que a passagem de ano é de Esperança, de Renovação, de Iniciar e tentar esquecer os maus pedaços de vida…

Se eles estão presentes no nosso dia a dia…

Como poderei eu festejar com os meus, sabendo que existem tantas,
“Dª Emília”  algures neste nosso país…

Estarei louca, ou vivemos num pais de loucos?

Onde os sentimentos não existem…
Até paro por aqui…
Nada mais vou dizer, deixo-vos participar…

 

 

Historia veridica e vivida por
Alzira Macedo


 

 

sinto-me: Mal
música: Eu sem ti, quem era eu sem ti

publicado por Alzira Macedo às 21:12
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7 comentários:
De Sonhosolitario a 3 de Janeiro de 2010 às 22:20
Olá amiga Alzira
Bem-vinda ao nosso convívio
Depois desta época festiva,

Li e tomei a liberdade de comentar
Com todos meus sentimentos
E em conjunto estou unânime contigo
Amiga não é só essa senhora nesse dia que está sozinha
Nesse dia e muitas mães como tu o dizes e é uma verdade
E realidade e como tu que vives isso no teu dia-a-dia deve custar
Ainda muito mais, é preciso ser muito forte
Por isso desejo-te muita força e muita saúde nesse bom coração para dares um pouco de alegria aquém não tem e para não sentirem tanto.
Não tenho mais palavras, alias tinha mas prefiro ficar por aqui.
Abençoados os bons corações…
Doce beijinho
sonhosolitario



De Alzira Macedo a 5 de Janeiro de 2010 às 14:29
Oi amigo sonhosolitario...

Confeço que já sentia saudades deste convivio...
Onde podemos esvaziar a alma de tudo quanto vivemos e sentimos...
Depois existe aqui uma partilha muito saudavel, por isso amo os blogs e quem me acompanha nesta maratona de escritos...
Nesta maratona de sentimentos...
Nesta maratona de partilha...
Bem haja a todos nós que conseguimos dar um pouco mais de alento, de esperança, de sorrisos e de boa disposição...
Desejo-te de coração um excelente Ano 2010.
Que teus sonhos e objectivos sejam realizados...
beijoca amigo e até breve...


De Rosinda a 3 de Janeiro de 2010 às 23:18
Alzira, é triste e sim deve haver muitas situações iguais e ainda piores pois que morrem de fome diariamente tantas crianças...
Mas temos que ter um pouco de esperança, ou a nossa vida deixará de fazer sentido...
Graças a Deus os meus pais estavam cá em casa comigo, mas pouco posso fazer para mudar os outros... é mais uma triste realidade, á qual não se pode ficar indiferente, ainda bem que a Alzira estava lá!
Que Deus a abençoe e lhe dê força para poder continuar a ajudar ...
Beijinhos


De Alzira Macedo a 5 de Janeiro de 2010 às 14:25
Onix

Obrigada pelas passagens aqui nos meus blogs…
desde já um bom ano 2010
Vou tentar pouco a pouco responder a todos os comentários que tenho em atraso e visitar vos no vosso cantinho…
Mas terá de ser feito pouco a pouco, pois nem sempre a nossa vida nos permite estar por estes lados muito tempo…
Quanto a esta triste realidade aqui escrita, penso que haverá muito para dizer sobre este caso e outros tantos iguais…
Mas nos levaria certamente muito tempo e nada poderíamos fazer…
A não ser deixarmos um momento de reflexão.
Vivemos num mundo de egoísmo de tal forma que estas historias vão se tornando muito repetitivas infelizmente…
Um beijinho e obrigada pela amizade…
até breve.


De Fisga a 6 de Janeiro de 2010 às 12:02
Olá amiga Alzira Macedo. Antes do mais, aqui ficam os meus desejos de um 2010, muito feliz. Com muita saúde, paz, alegria e muito amor. Muito amor, precisa-se. Para ti, e para todos os que de algum modo t e são queridos. Foi para mim, como que o renascer do sol, a chegada ao teu blog, onde já não vinha fás tanto tempo. Olha minha amiga, Não é como se diz lamechice, é sim uma verdade nua e crua. E sem nenhum laivo de Vaidade ou de vergonha, te digo Chorei a bom chorar, ao ler a tua história vivida de uma forma tão dramática e triste. Não tanto pela d. Emília, mas, sim pelas tantas Das. Emílias, que há por esse mundo fora, E às quais Qualquer um de nós está sujeito a juntar-se Um dia, quem sabe até sem nos perguntarem da nossa. Vontade de ir ou ficar. E é este o mundo, em que nós vivemos, onde os principais valores humanos, deixaram de ter Lugar no nosso dicionário. Olha amiga eu tomei a liberdade de adicionar aos meus favoritos. Um beijinho e Um 2010 no mínimo, mais feliz, que o da D. Emília, para ti e para todos os que tu amas. Eduardo.


De Alzira Macedo a 7 de Janeiro de 2010 às 22:16
Olá Fisga meu amigo…
fico feliz pela tua passagem é sinal de que estás bem…
Confesso que me preocupei um pouco contigo…
mas como não vinha á net, nada podia saber…
Agora vou voltando aos poucos e vou iniciando as comunicações com os amigos que já se tornaram indispensáveis na minha vida….
Também te desejo amigo um excelente 2010 que teus objectivos neste caso a tua saúde seja vencedora e que teu animo regresse para podermos novamente voltar a cuscar uns aos outros ahahahah

Agora quanto ao meu poste é na realidade uma verdade triste e crua….
Mas a vida é assim mesmo, cheia de cantos muito feios e que tentam esconder…
Eu não escondo, eu falo o que sinto, é talvez por esse motivo que sofro…
mas sofro sem sofrer, porque tenho o carinho dos meus utentes…
Pena é que eles não tenham dos familiares deles…
Senti essa tua tristeza, pois só quem é sensível e tem o coração no devido lugar é que sente dessa forma…
Fico feliz sabendo que ainda existe muito coração nobre nesta terra…
Isso recompensa tudo quanto vejo de mal nos lares…
Obrigado fisga pelo teu carinho pela tua sempre presença e por eu pertencer com meus escritos nos teus favoritos…
Sabes por vezes esqueço-me de agradecer a Deus por todos estes belos momentos…
Hoje é um dia em que não irei esquecer, porque o estou a viver…
beijos e até breve…


De Fisga a 10 de Janeiro de 2010 às 16:49
Olá minha querida e sempre amiga Alzira. Obrigado pelas tuas palavras de carinho compreensão e amizade. Eu estou contigo, na parte de não esconder os problemas, que afectam a mim e aos outros, desde que isso não vá minar a intimidade e a privacidade de cada pessoa, acho até que o simples facto de desabafar-mos com alguém, nos ajudam a minimizar o nosso sofrimento, por ver, e sentir. A prova de que não escondo, muito em especial, os meus problemas, é que te confessei abertamente, e publicamente que chorei, também porque, se de algo tenho vergonha, não é de ter um coração de manteiga, e de chorar por ver e sentir o mal dos outros. Afinal vivo muito bem e muito feliz, com este coração que tenho. Um resto de Domingo muito bom, um beijinho deste amigo sempre atento. Eduardo.


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