Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

História verídica e marcante

 

 

Meu primeiro contacto com a emigração

Inicio dos anos 70, nessa altura ainda ninguém sabia que poucos anos depois, iríamos entrar na revolução do 25 de Abril de 1974.
Os tempos eram bem difíceis, nessa altura tinha apenas 3 anos, recordo-me de muitas passagens da minha vida…·Mas, hoje é que posso dar valor e justificar alguns momentos vividos que em quanto, criança não entendia.
Vivia na aldeia com meus pais e irmãos, numa casa velhinha de paredes em pedra, e o chão era terra batida. 

O telhado, tinha apenas uns caibros.( barrote que fixa as traves, para se assentarem as ripas para segurarem as telhas) que eram muito estreitas e arredondadas (chamada telha á Portuguesa)
eu ficava maravilhada quando conseguia ver o céu estrelado através das telhas partidas, ou quando a chuva caia através as mesmas.
Concordo que meus pais estavam desesperados, não eram condições de se viver.
Mas nós enquanto crianças não temos o peso das dificuldades e da realidade
Então vivia feliz e sorridente.
Não entendi porque meu pai tinha partido há uns tempos atrás, e não tinha regressado a casa como sempre fazia depois do trabalho.
Tinha ido em busca de melhor vida e foi (de assalto), a pé e escondido para não ser apanhado pois era uma ilegalidade.
Minha mãe ficou com 3 filhos nessa altura e grávida de outro, trabalhava do amanhecer ao anoitecer. Era no campo para poder nos alimentar, era a vida de casa, Ir buscar agua ao cântaro á fonte, como devem calcular não existiam as máquinas de lavar roupa nem a loiça nem sequer um ferro de passar a ferro, Aliás não tinha-mos electricidade em casa.
Que maravilha á luz da Vela, que se apagava com frequência quando o vento entrava através dos buracos das telhas, das portas etc.…
Tudo isto nos fazia rir a nós crianças que jogávamos ao esconde- esconde no escuro….
Continuando com minha mãe então: que ainda tecia tapetes no tear para fora e ia ganhando alguns escudos para as despesas que eram tantas.
(Como é que conseguiam trabalhar tanto?)
Ainda me lembro que minha mãe ia ao monte buscar lenha para fazer o lume e cozinhar em cima de uma pedra e umas grades de ferro, para se pousar as panelas pretas.
Meu pai consegui chegar até França sem ser apanhado, procurou trabalho na construção civil (Pedreiro) e assim começou a emigração para meu pai…
As cartas que escrevia para minha mãe procurando saber notícias demoravam semanas a chegar ao seu destino, as saudades iam aumentando dia após dia
via muitas vezes as lágrimas correr pelo rosto da minha mãe, e quando perguntávamos, respondia a sorrir não é nada é a felicidade de vos ver brincar.
Então perguntávamos novamente, ò mãe, você chora quando está contente? (Estranho não é!!!)
E dizia ela novamente, quando fores adultos ides entender que choramos por muitos motivos…
Mas depressa a brincadeira nos fazia esquecer toda essa conversa,
até um dia, chegar uma carta do meu pai, dizendo que não aguentava mais estar longe de nós e que tinha encontrado casa para irmos viver para França.
Foi uma confusão total, ir á cidade de autocarro tirar fotografias para o passaporte.
e passar uma inspecção medica…
Havia tanta gente diferente de nós na cidade, tantos carros a motor…
Na aldeia, os carros eram puxados por animais (vacas ou bois,) que nós corríamos atrás para saltar para cima do carro e andar um bocadinho até o lavrador dar por ela e nos fazer descer ahahahha
Ele sabia que nós estávamos em cima do carro e deixava andar, depois é que nos fazia descer quando já estávamos distanciados de casa, mas na nossa inocência de criança, pensávamos que o tínhamos enganado ahahahha
o dia da partida chegou…

Senti uma estranha sensação, ter de calçar sapatos e a roupa do domingo. Os nossos restantes bens, ser fechadas em malas e sacos. Os familiares que viviam em nossa casa com a lágrima no olho. Os vizinhos e amigos todos á frente da porta a desejar boa sorte para que fizéssemos boa viagem, e que Deus nos acompanha-se.
Minha mãe já chorava há uns dias atrás, eu não entendia nada, hoje sei porquê.
(Porque um irmão meu não tinha passado a inspecção medica sofria dos pulmões tinha de ficar em Portugal)
O dinheiro tinha sido gasto nos passaportes e bilhetes de comboio, a casa em França arrendada, não tínhamos outra alternativa.
Meu irmão ficaria com os avós paternos, infelizmente os avós maternos tinham falecido quando minha mãe tinha (3 anos faleceu o pai aos 14 anos faleceu a mãe)
De repente chega um carro Preto e verde, o chamado táxi… Os gritos de choro eram cada vez mais altos, minha mãe não conseguia se separar do filho.
Foi dado a ordem pelo meu pai, de nos ir colocando dentro do táxi.
as mãos dos vizinhos nos diziam Adeus, o coração começou a apertar mil e uma ideia me passou pela cabeça…

Para onde vamos? Quanto tempo? E porque não posso ficar aqui onde sou tão feliz?
Não consegui conter tanta dor e medo ao mesmo tempo.
quando meu Padrinho pegou em mim para me assentar no Taxi então gritei debati-me, dei morros no peito dele, dei pontapés não queria ir embora, queria ficar aqui, na minha aldeia no meu país…
fui colocada dentro do carro aos soluços, minha mãe foi arrastada do meu irmão as portas fecharam-se  e o carro começou a andar.
através dos vidros e das lágrimas via  meu irmao a chorar, minha aldeia e amigos desaparecerem...

Dois dias depois, chegamos a outro destino... A França…

Por hoje acabo aqui…
Continuarei esta minha viagem outro dia…


Alzira Macedo

 

sinto-me: emocionada

publicado por Alzira Macedo às 15:11
link do post | comentar | favorito
7 comentários:
De Anónimo a 27 de Fevereiro de 2008 às 16:13
Mas que historia cativadora á distancia de muitos anos mas pelo que se lê ainda bem presente na memória da autora, estou curioso por seguir os restantes capítulos desta obra que vai nascer e ficar perpectuada em livro não tenho duvidas, Parabens< Poveira
Poesia.e.festa</a>


De Viajante dos Ventos a 27 de Fevereiro de 2008 às 19:11
Fiquei Impressionado!! Realmente isso tudo vai ter que virar livro querida ALZIRA. Muito marcante mesmo a sua história de vida, prossiga e podes sempre contar comigo.

Grande abraço!!!

VIAJANTE DOS VENTOS


De MariLu a 28 de Fevereiro de 2008 às 11:51
... muito emocionante mesmo. Ainda bem que eu era bem pequena quando meus pais decidiram fazer o mesmo - apenas me recordo da brancura enorme e demasiado frio por volta de mim, as minhas perninhas apenas de meias ate ao joelho ficaram geladas com tanta neve. Era noite e ainda hoje creio que estava a amanhecer o dia - após tanta claridade. Apenas tinha 3 anos em caminho dos 4. Foi a minha chegada a Alemanha em pleno inverno de 1970. Felizmente caímos " numa aldeia pequena, pelo menos as avozinhas pareciam-se com as avós de Portugal - a maior parte vestia luto ... Muita gira esta introdução para - talvez - um futuro livro ... continua, porque também falas por mim.
Bjs


De sonho a 29 de Fevereiro de 2008 às 09:37
Boa noite minha amiga!

Estive a ler o post com imensa atenção.e realmente sair das nossas raizes já é por si complicado,mas realmente antigamente era tudo mesmo atrasado,imagina que as cartas demoravam tanto tempo,vê o que isto mudou,hoje até videos conferencias pode-se fazer...imprecionante mesmo.
Já opinei o que para mim é emigrar,mas confesso amiga,que chorei,sim chorei ao ler esta tua história de vida,sem duvida um exemplo para todos nós.
Estarei atento ao segundo capitulo.
Desejo-te agora um enorme beijinho,com muita ternura,e amizade,deste teu e sempre amigo...
Sonho


De Eugenio de Sã & Olga Kapatti a 1 de Março de 2008 às 17:46
Vivo há cerca de um ano no Brasil, mais precisamente numa grande cidade do noroeste do
interior paulista; São José do Rio Preto. Moro nos arralbaldes, num bairro residêncial de prestigio,
um pouco afastado do bulicio da urbe.
Não estando intregrado no mercado de trabalho local, os meus contactos restrigem à minha
nova familia e a uns poucos conhecidos na cidade, onde me desloco regularmente para compras
e passeio.
A população, no geral, é afável, tem um sotaque pronunciado inerente à região distante da
capital do estado ( S. Paulo ) cerca de 450 Kms e a 700 Kms das prárias do litoral paulista,
as mais próximas.
Uma coisa se sente em relação aos portugueses; todos têm algum parente mais ou menos afastado
ligado a Portugal ou lá nascido, todos falam com carinho do país que lhes deu origem. Pena que
a empresa distribuídora dos sistem de televiaão por cabo esqueça essa realidade e ofereça canais
de França, Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Espanha e até um de um país árabe, mas quanto a
Portugal (osde há dois brasileiros em permanência) ...nada; nem um. E raramente se vê um programa
português.
Razões que a razão e a lógica desconhecem!
Saudades? - Bem estive em Portugal em Dezembro último para opassar o Natal. Não deu, portanto,
para as sentir assim, ardendo no peito. Mas estou certo que chegará essa altura.

E pronto, Alzira; Missão cumprida.
Um beijo carinhoso do Eugénio e outro da Olga


De Cristal a 1 de Março de 2008 às 19:38
Parabéns , este teu post fez-me lembrar uma prima que tenho , que tal como tu emigrou.
O destino dela foi a Suiça, hoje passados 15 , continua por lá, mas sempre que cá vem é uma alegria para todos.
Um dia vai voltar, diz ela , mesmo longe o coração está sempre cá.
Beijos cristalinos e bom fim de semana


De Manuel Pascoal a 2 de Março de 2008 às 20:32
Amiga Alzira tambem eu que nao sou dos mais fracos me sensibilisou este seu episodio tao emocionante, voce esta de parabens por ter a coragem de escrever o que sente, e era bom que os mais novos que tudo encontraram feito soubecem o que o nosso povo passou para fugir a miseria que naquele tempo era abundante, ir a lenha ao monte naquele tempo era roubar. muito mais teria para contar mas outra vez . um Beijinho M Pascoal


Comentar post

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 76 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Recuso-me aceitar

. Mais um amanhecer

. Que dia é hoje???

. Aprenda a falar Alentejan...

. Sonho ou Realidade...

. Um esboço

. Imaginação poderosa.

. Frazes ditas

. Passei somente para dizer

. Poisando nas palavras...

. Mais uma etapa da vida

. Perdida no tempo

. As fazes da lua,,,

. Se não sabe fica a saber....

. Amor é tudo isto e muito ...

. EM ALGUM LUGAR DO PASSADO...

. Aqui estou

. Longe de ti minha alma gr...

. Bom 2012

. Senti vossa falta

.tags

. todas as tags

.favoritos

. A perfeição...

. As Contradições do Amor

. Quem serei eu

. Alzira Macedo-dueto-Sonho...

. Teu Nome

. Homem do Mar

. Amanhecer

. Somente Tu

. Um pouco sobre mim ...

SAPO Blogs

.subscrever feeds